Primeiro correspondente do jornal chinês Diário do Povo no Brasil comenta seu trabalho no país

Publicado: 1 01UTC dezembro 01UTC 2011 em Mundo

Por Luiz Gustavo Pacete/Redação Revista IMPRENSA | 07/04/2011 17:40

O correspondente do jornal chinês Diário do Povo, Wu Zhihua, completa 26 anos de trabalho no Brasil. Aterrissou em Brasília em 1985, ano em que o país vivia uma histórica transição política que já despertava o interesse da China pois, apesar das diferenças culturais, as duas nações viviam à beira de grandes tranformações. Zhihua contou a IMPRENSA como tem sido o trabalho no país durante esses anos.

Antes de se mudar para o Brasil, no entanto, sua realidade era a dos alagados cultivos de arroz. Foi em uma fazenda de arroz e trigo, na província de Anhui, às margens do rio Yangtzé, que ele produziu sua primeira reportagem. A iniciativa da administração da fazenda de criar um jornal mudou para sempre a história deste repórter.

No ano de 1979, Zhihua se formou em língua portuguesa no Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, o que mais tarde seria seu passaporte para o Brasil. Depois disso, entrou no Diário do Povo e formou-se jornalista na Universidade do Povo.

A revista IMPRENSA em sua edição nº 9, de 1988, apresentou Zhihua ao Brasil. Naquele momento, recém chegado, o jornalista trazia consigo o mesmo desejo da China: aprender com outros países. À época com 34 anos, Zhihua era identificado como “um repórter completamente desconhecido no jornalismo brasileiro” em busca de pautas como Carnaval, Amazônia, dívida externa, além, é claro, da transição política.

Hoje, o cenário e os interesses mudaram. Agora, com a companhia de sua esposa no Brasil e dois filhos morando em Pequim, Zhihua mostra para a China outro país. Uma nação estável politicamente e que, aos olhos do grande país asiático, é o principal parceiro na região.

A visita da presidente Dilma Rousseff à China na próxima terça-feira (12), acompanhada de uma comitiva de ministros e empresários, evidencia tal importância. De Brasília, Zhihua conversou com o Portal IMPRENSA sobre o que aprendeu nas últimas duas décadas com os jornalistas brasileiros, as mudanças na cobertura e o preparativo para a visita de Dilma a seu país.

Portal IMPRENSA – O que o Diário do Povo representa para a China?
Wu Zhihua – O Diário do Povo é o maior jornal da China com uma circulação de 2,5 milhões de exemplares. Um jornal muito dedicado também a notícias internacionais. Sou o primeiro correspondente do Diário do Povo no Brasil. Cheguei aqui em maio de 1985. Nesses anos todos houve uma grande mudança na comunicação social da China.

Portal IMPRENSA – Quais foram essas mudanças?
Zhihua – A maior delas foi tecnológica. Era muito difícil mandar fotos. Isso impedia que enviássemos noticias de forma rápida. Outra mudança foi o aumento na criação de jornais no país. Hoje são quase 2 mil jornais e, é claro, o aumento da concorrência também. Além disso, o país evoluiu eletronicamente, temos a Xinhua, maior agência de notícias da China. Temos também a CCTV, principal canal do país e a Rádio Pequim, ou seja, uma variedade de meios.

Portal IMPRENSA – Que tipos de desafios você encontrou ao chegar?
Zhihua – A questão tecnológica foi um grande desafio. Era muito difícil enviar imagens e textos para a China. Outra dificuldade foi com o idioma, apesar de eu ter me formado em língua portuguesa, era diferente para falar e entender. Mas não me intimidei e segui. Com a receptividade dos brasileiros consegui chegar até aqui. Muitas vezes ainda escorrego no português, mas conto com a paciência das fontes.

Portal IMPRENSA – E em termos editoriais?
Zhihua – Como não conseguíamos atuar como uma agência de notícias já que as informações demoravam a chegar, fazíamos muito mais comentários e análises. Outro desafio era passar com precisão o que estava acontecendo no país. Naquela época os interesses da China já eram grandes pelo Brasil.

Portal IMPRENSA – Quais eram os interesses?
Zhihua – O Brasil vivia uma mudança política muito forte, Diretas Já, transição política, processo de democracia. Tudo isso era muito falado na China. Recordo que em 1986 o Brasil declarou a moratória da divida externa e um grande esforço para controlar a inflação. E a China se interessava, pois ela não tinha experiência nessa área política e tampouco na economia. Até 1978, o país nunca tinha pedido investimento estrangeiro. E era o que ela buscava.

Portal IMPRENSA – E hoje, quais são as grandes pautas?
Zhihua – Hoje a China está muito interessada no crescimento do Brasil. Para nós, o país é sempre visto como parceiro. O interesse agora é em investir aqui. A própria visita do Obama já sinalizou a importância do país para a região. Além disso, o grande foco da China é investir em países em desenvolvimento. Se na época que eu cheguei ela queria investimento, agora ela investe.

Portal IMPRENSA – Como está a cobertura da visita de Dilma? Você vai falar com a presidente daqui?
Zhihua – A visita para mim é muito importante, pois é um acontecimento histórico nas relações bilaterais. Você pode pensar que no ano passado nosso presidente [Hu Jintao] visitou o Brasil. Que há dois anos Lula visitou a China, e em um intervalo tão pequeno a presidente vai visitar o país. Eu gostaria muito de entrevistar a presidente, mas essa decisão ainda não foi tomada pela direção do jornal. Como a China vai receber outros dez presidentes, e nosso espaço é limitado, ainda está sendo discutido o que fazer.

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